sábado, 26 de outubro de 2013

Existir.

Paro. Olha tudo à minha volta, e tudo parece ter deixado de fazer sentido. Com a cabeça descansada nos braços, sinto que o mundo do qual um dia fiz parte, sem me aperceber, me deixou para trás. O meu mundo.

Hoje, enquanto a conversa ia acesa, os risos abafavam o vento, e tudo parecia deixar de importar, porque naquele momento, éramos nós. Por momentos fechei os olhos, só para absorver cada cheirinho, cada movimento ... até que deixei de ouvir. Assustada, abri os olhos, e todos as minhas forças falharam quando um grito seco e quase inaudível tentou sair da minha boca. Caí de joelhos, sem qualquer reacção, completamente inanimada. Olhava um vazio enorme, aquele que sentia no coração. Naquele preciso instante, tudo fez sentido. Eu era espectadora da minha própria vida. As lágrimas caíam como sempre caíram, comigo. Quanto a isso, sei que não me posso queixar, porque sempre que caí, elas caíram comigo.


Nunca mais consegui voltar a fazer parte da minha vida. Umas vezes, nem me apercebo, ou penso no assunto, outras ... outras vezes são como hoje, em que me sinto a única pessoa no mundo, que tudo está em pausa, e eu ando as voltas, sem qualquer direcção ou objectivo.                          


As vezes, o melhor é mesmo dizer "já chega". Existe um diferença muito grande entre viver ... e existir ...

e eu existo, e estou cansada de fingir.

sábado, 28 de setembro de 2013

saudade.

Um dia disseram-lhe "aproveita, antes que seja tarde demais" ...
Todos os dias tentava aproveitar ao máximo, mas quando chegava a noite uma sensação estranha aparecia, como se tudo o que fazia e acontecia tivesse, de algum modo, ser pensado ou reflectido ... Então, sem se aperceber, deixou de saber viver.

Dias e noites passaram, e com eles levaram a pequena menina, dando lugar a uma mulher ... uma mulher de olhos apáticos, conduzida por horários e obrigações, programada a seguir todos os passos que antes dera.

Um dia, enquanto caminhava, reparou numa rosa que brotava no meio do passeio. Sem pensar, seguiu a bonita flor, e quando, pela primeira vez levantou os olhos do chão, viu tudo. Tudo o que perdera quando decidiu que havia de aceitar tudo o que lhe dissessem ... Então, chorou. Chorou de saudades, tantas saudades ... as lágrimas caiam pelo rosto sem cessar, enquanto as mãos tentavam enxuga-las em vão ... quando, devagar, olhou para o céu, um sorriso se rasgou de orelha a orelha, de tal maneira maravilhoso, que as nuvens que choravam também por pena, se abriram num sol repentino e glorioso, espantando tudo onde reluzia. O cinzento que a prendia tinha desaparecido! Rodopiou de um lado para o outro, cantando com as andorinhas, dançando com as borboletas, correndo de um lado para o outro, como se tivesse acabado de nascer! ... até que parou. Estendeu os braços, como se abraçasse o mundo inteiro, continuando a olhar para o céu, mas desta vez, focando algo para além do que via ... com um suspiro disse: "Agora percebo o que me disseste. E eu aproveitei, sei que aproveitei ao máximo. A saudade que sinto é o resultado de tudo que um dia foi maravilhoso. Obrigada Mãe."

Nesse dia, um caminho diferente foi percorrido, e muitos mais se seguiram.
Nunca mais nada foi igual, nunca mais nada foi cinzento ... e todos os dias, quando saía de casa, pronta a desvendar um novo caminho, olhava o céu, deixando cair uma lágrima ... uma pequena gota que reluzia com a luz radiante de mais um dia, significado da saudade de algo que um dia foi tudo o que conhecia e precisava, e que hoje, não passava de uma memória ... mas no fundo, sabia que essa memória a acompanharia para sempre, todos os dias, qualquer que fosse a direcção que decidi-se tomar.


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